Os eicosanóides

 
Os eicosanóides são hormonas pouco conhecidas mas fundamentais para o bom funcionamento do organismo humano. Designadas, pelo Dr.Barry Sears, de “superhormonas”, os eicosanóides são as hormonas mais poderosas que possuímos, sem elas não poderiam realizar-se muitas das complexas funções fisiológicas imprescindíveis à vida.

Os eicosanóides controlam todas as células, todos os orgãos e todos os sistemas hormonais do corpo humano, desempenhando assím, um papel importante na comunicação celular. Possuem uma vida muito curta, nascem, fazem o seu trabalho e depois se auto-destruiem, são praticamente invisíveis, não circulam pela corrente sanguínea, atuam apenas a nível local como “mensageiros” passando informação de uma célula à outra.

Os eicosanóides foram as primeiras hormonas fabricadas pelos organismos vivos há cerca de 500 milhões de anos atrás. Porém só foram descobertos em 1936, com o descobrimento da primeira hormona eicosanóide, a prostaglandina. Com o tempo foram-se descobrindo outros como os leucotrienos, prostaciclinas, tromboxanos, lipoxinas etc. Cada ano são descobertos novos eicosanóides e suas implicações nos sistemas hormonais do corpo.

Em 1982 foi concedido o premio Nobel de Medicina ao cientista Vane e seus colaboradores Bengt Samuelsson e Sune Bergelson por descobrirem a ação dos eicosanóides nas doenças humanas.

Cada célula do nosso corpo produz diferentes tipos de eicosanóides. Assim como o corpo produz colesterol “bom” e colesterol “mau”, as células  produzem eicasanóides “bons” e eicasanóides “maus”, sendo ambos necessários ao correto funcionamento do organismo. Os eicosanóides bons são anti-inflamatórios, detêm a inflamação e promovem a saúde e os maus são pró-inflamatórios, promovem a inflamação e a destruição dos tecidos.

Até certa medida é indispensável uma determinada quantidade de eicasanóides pro-inflamatórios para proteger-nos de organismos invasores como bactérias, virus e parasitas. O problema radica quando o balanço dos eicasanóides no corpo encontra-se descompensado. Quando o balanço dos eicasanóides pende mais para os “maus”, dá-se a aceleração do envelhecimento do corpo e o inevitável desenvolvimento das doenças crónicas, tais como o infarto cardíaco, infarto cerebral, doença de Alzhemir, esclerosis múltiple, dor crónica, depressão, cancro, artrite reumatoide… Ao contrário, quando o balanço dos eicosanóides pende mais para os “bons”, tanto melhor será o bem-estar e a longevidade do corpo humano.

Como se formam os eicosanóides?

Os eicosanóides formam-se a partir dos ácidos gordos essenciais ómega-6 e ómega-3, são essenciais porque o corpo não os pode sintetizar, devendo-se ingerir com a alimentação. Todos os eicosanóides produzem-se a partir de ácidos gordos essenciais de 20 átomos de carbono de longitude. Os ómega-6  são os que desempenham uma forte ação na formação da maioria dos eicosanóides, no entanto, podem fazer muito bem como também muito mal, devendo entrar em ação os ómega-3 para impedir que se forme muitos eicosanóides maus a partir dos ómega-6.

A maioria dos ácidos gordos ómega-6 da nossa dieta derivam do ácido linoléico. As fontes mais comuns são os óleos vegetais como girassol, milho, soja, sésamo, açafroa e outros… Uma vez no corpo o ácido linoléico será convertido em ácido gama-linolénico (GLA). A partir do GLA será produzido outro ácido, o ácido dihomo-gama-linolénico (DGLA). É a partir deste ácido essencial fundamental que se vai formar os eicosanóides “bons” com poderosos efeitos anti-inflamatórios, mas também, a partir dele vai-se produzir o ácido araquidónico (AA).

Este ácido (AA), por meio da acção de uma enzima chamada delta-5-desaturasa, vai produzir os eicosanóides “maus”. O DGLA é o precursor dos  eicosanoides “bons” e o AA é o precursor dos eicosanóides “maus”. Embora o corpo necessite uma pequena quantidade de ácido araquidónico, muito, favorece a inflamação e o aparecimento das doenças crónicas.

Como impedir a produção dos eicosanóides “maus”?

É aqui que entram em ação os ácidos gordos ómega-3. Embora a partir deles se formem uma pequena quantidade de eicosanóides bons, não são suficientes. A principal ação dos ómega-3 é impedir a produção de ácido araquidónico e interromper, desta maneira, a formação de eicosanóides maus. Os ómega-3 de cadeia longa encontram-se no peixe azul: cavala, sardinhas, salmão, arenque, atum e anchovas. O óleo de peixe á a fonte mais rica de ómega-3 (EPA e DHA). O EPA, ácido eicosapentanóico, um composto dos ácidos gordos ómega-3 vai inibir a atividade da enzima delta-5-desaturasa, causadora da transformação dos ácidos gordos ómega-6 em ácido araquidónico. No entanto o EPA não é suficiente para bloquear toda  ação nefasta da enzima delta-5-desaturasa, faz-se necessário reduzir o consumo excessivo dos óleos vegetais, ricos em ómega-6, da dieta diária.

A tendência atual é a ingestão de muito ómega-6 e pouco ómega-3 numa proporção de 20:1, este desnível vai afetar o delicado equilibrio dos eicosanoides, como consequência o corpo produzirá mais eicosanóides pro-inflamatórios e menos anti-inflamatórios. Razão pela qual a maioria das doenças crónicas são o resultado do desiquilíbrio entre os eicosanóides “bons” e os eicosanóides “maus”.

Outro fator que contribui para o aumento dos eicosanóides maus são os níveis altos de insulina no sangue induzidos por uma excessiva ingestão de alimentos, sobretudo, hidratos de carbono de alta carga glicémica. Isto deve-se a que a insulina ativa a enzima D5D a produzir mais ácido araquidónico ( AA), do qual, como já mencionado, derivam a maioria dos eicasanóides maus. Ao reduzirmos a quantidade de AA interrompemos, assim, a produção de eicosanóides “maus”.

O que é que pode destruir o delicado equilibrio dos eicosanóides?

O regime alimentar moderno é excessivamente abundante em gorduras ómega-6, estão presentes numa infinita quantidade de alimentos, nos óleos vegetais: girassol, milho, soja, amendoim; nos alimentos industrializados como bolachas, bolos, patatas fritas, snacks, pão de bolsa, na carne, nos frutos secos, nas leguminosas, na maionese etc. Nos alimentos que ingerimos também encontramos quantidades excessivas de ácido araquidónico como a carne vermelha, a gema de ovo, a carne das vísceras. Do mesmo modo que se deve evitar as gorduras saturadas e as trans, também deve-se reduzir a gordura ómega-6 e a ingestão de alimentos que contenham ácido araquidónico para não incrementar a produção de eicosanóides “maus”.

Como podemos atuar sobre os eicosanóides?

A dieta é a ferramenta mais poderosa que possuímos para atuar sobre estas hormonas. Se reduzimos as quantidades de gordura saturada e de ácido araquidónico, moderamos a gordura poliinsaturada ómega-6 e completamos a nossa dieta com un suplemento de óleo de peixe, rico em ómega-3 (EPA e DHA) contribuímos para manter os eicasanóides em perfeito equilíbrio.

Nos últimos anos a nossa dieta tem vido a sofrer  um excesso de gordura ómega-6 em detrimento dos ómega-3, isto deve-se em grande medida ao emprego dos ómega-6 pela indústria alimentícia e à redução do consumo de peixe nos hábitos alimentares das pessoas. Atualmente ingere-se 20 vezes mais gorduras ómega-6 do que há 50 anos, somando-se também o inconveniente de que se come muito mais, sem medir as consequências que daí possam advir.

Se aumentamos o consumo de ómega-3, sem primeiro, reduzirmos o consumo de ómega-6 não obteremos grandes benefícios. É necessário aumentar o consumo de ómega-3, mas ao mesmo tempo, reduzir a alta ingestão de ómega-6 a que estamos “expostos” para que se note a ação dos eicosanóides “bons”, como mediadores no combate à inflamação. É de vital importância que exista um equilíbrio entre estes dois ácidos gordos.

Na confecção dos nossos pratos deve-se usar a gordura monoinsaturada como o azeite de oliva, este tipo de gordura não exerce nenhuma influência sobre os eicosanóides, nem nos bons nem nos maus, com o conveniente acrescido de que reduz a taxa de entrada dos hidratos de carbono na corrente sanguínea impedindo o aumento da glicémia e a resposta insulínica.

Em medicina usa-se os anti-inflamatórios para aliviar a dor causada pela inflamação. Os anti-inflamatórios atuam sobre os eicosanóides “maus” inibindo-os, mas desgraçadamente também afetam a síntese dos eicosanóides “bons”.

A dieta da Zona, é uma dieta saudável e equilibrada porque intensifica a produção de eicosanóides “bons”, reduz o consumo de hidratos de carbono de alta carga glicémica, causadores da secreção da insulina, que como já mencionado aumenta o ácido araquidónico, o precursor de todos os eicosanóides pro-inflamatórios.

Manter a insulina e os eicasanoides sob controle é o grande objetivo da dieta da Zona com o fim de promover a saúde, o bem-estar e a longevidade do corpo humano.

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